Cultivo do café orgânico (Parte 1)

Plantio orgânico na Fazendinha Agroecológica Km 47, Seropédica, RJ

Plantio de café orgânico na Fazendinha Agroecológica Km 47, Seropédica, RJ

Cultivo do café orgânico

O cafeeiro prefere solos bem drenados. Pode crescer em solos pouco profundos devido ao desenvolvimento de grande rede de raízes superficiais. Solos ricos em húmus, levemente ácidos são os mais propícios para o desenvolvimento da planta.

Em primeiro lugar, o produtor deve observar a aptidão agrícola da área a ser cultivada, respeitando seus limites e potenciais. Forçar a natureza é o primeiro passo para o insucesso de um empreendimento agrícola, sendo ainda mais grave no caso da agricultura orgânica, visto que dificulta a sustentabilidade do sistema, constituindo um dos aspectos considerados para fins de certificação.

A área deve ser preparada utilizando-se as práticas de conservação de solo, como terraceamento, plantio em curvas de nível, cordões de contenção, etc. O uso de máquinas somente é permitido quando o declive for menor que 15%. Na medida do possível, deve-se minimizar a reversão da camada arável do solo e a desagregação de sua estrutura. Implementos que causam a desestruturação da camada arável, tais como arados de discos, grade aradora e enxadas rotativas devem ser evitados, pois expõem o solo à erosão e a altas temperaturas. Entretanto, dependendo das características físicas do solo, topografia, necessidade de destocamento e outras situações peculiares, tolera-se o emprego desses implementos.

Para fins de conservação de solo recomenda-se o plantio direto e o cultivo mínimo. São práticas que reduzem a erosão e beneficiam as atividades biológicas do solo. O produtor orgânico deve estar atento aos cuidados relacionados à conservação do meio ambiente, tais como, evitar desmatamentos desnecessários ou irregulares, promover a conservação de mananciais, matas ciliares, etc. As queimadas devem ser evitadas, sendo toleradas apenas em situações de extrema necessidade.

Escolha de Cultivares

As cultivares devem ser escolhidas em função de diversos aspectos, destacando-se: produtividade, qualidade de bebida, época de maturação, espaçamento, microclima, ocorrência de pragas e doenças, dentre outras.

Em regiões com alta incidência do fungo causador da ferrugem (Hemileia vastratrix), a escolha de cultivares deve favorecer o plantio de espécie ou cultivares resistentes. O café Conilon apresenta resistência natural de campo a esta doença.

No caso do café arábica, as cultivares tradicionais, tais como Mundo Novo, Catuaí, e Bourbon, só podem ser utilizadas em áreas de menor ocorrência da doença, bem como quando o produtor dispõe de métodos alternativos e técnicas orgânicas eficientes para o seu controle. De outro modo, a escolha deve recair sobre cultivares de café arábica, geralmente híbridos mais resistentes e já disponíveis, tais como:

Icatu amarelo – obtida do cruzamento do café robusta com o café arábica cultivar Bourbon, seguida do cruzamento com a cultivar Mundo Novo. Apresenta porte alto e frutos de cor amarela, maturação precoce a tardia, moderada resistência à ferrugem; alta produtividade e qualidade de bebida de boa a excelente;

Icatu vermelho – obtida do cruzamento do café robusta com o café arábica cultivar Bourbon. Apresenta porte alto e frutos de cor vermelha, maturação precoce a tardia, moderada resistência à ferrugem; alta produtividade e qualidade de bebida de boa a excelente;

Catucaí – resultante de cruzamento entre as cultivares Icatu e Catuaí Vermelho ou Amarelo. Apresenta porte que varia de baixo a alto, frutos vermelhos ou amarelos, maturação variável, moderada a alta resistência à ferrugem, produtividade alta e boa qualidade de bebida. É indicada para plantios adensados;

Oeiras – derivada do cruzamento da cultivar Caturra Vermelho com o Híbrido de Timor. Apresenta porte baixo, frutos vermelhos, maturação variável, moderada a alta resistência à ferrugem, produtividade média e boa qualidade de bebida. É indicada para plantios adensados;

Obatã (IAC 1669-20) – derivada do cruzamento da cultivar Vila Sarchi com o Híbrido de Timor (CIFC 832/2), com posterior cruzamento natural com cultivar Catuaí Vermelho. Apresenta porte baixo, fruto vermelho, maturação tardia, alta resistência à ferrugem, alta produtividade e boa qualidade de bebida. É indicada indicada para plantios adensados ou em renques;

Tupi (IAC 1669-33) – originada do cruzamento entre cultivar Vila Sarchi e o Híbrido de Timor (CIFC 832/2). Apresenta porte baixo, fruto vermelho, maturação precoce, alta resistência à ferrugem, boa produtividade e boa qualidade de bebida. É indicada indicada para plantios adensados, super-adensados ou em renques;

Paraíso MG H 419-1 – originada do cruzamento entre o Catuaí Amarelo (IAC 30) e o Híbrido de Timor. Apresenta porte baixo, fruto amarelo, maturação média, alta resistência à ferrugem, alta produtividade e boa qualidade de bebida. É indicada para plantios normais e adensados;

Catiguá MG1 e MG2 – originada do cruzamento entre a cultivar Catuaí Amarelo (IAC 86/UFV 2154-344 EL 7) e o Híbrido de Timor (UFV 440-10). Apresenta porte baixo, fruto vermelho, maturação média, alta resistência à ferrugem, alta produtividade e boa qualidade de bebida. É indicada para plantios normais e adensados;

Sacramento MG1 – originada do cruzamento entre a cultivar Catuaí Vermelho (IAC 81/UFV 2154-79 EL 7) e o Híbrido de Timor (UFV 438-52). Apresenta porte baixo, fruto vermelho, maturação média, alta resistência à ferrugem, alta produtividade e boa qualidade de bebida. É indicada para plantios normais e adensados;

Araponga MG1 – originada do cruzamento entre o Catuaí Vermelho (IAC 86/UFV 2154-345 EL 7) e o Híbrido de Timor (UFV 446-08). Apresenta porte baixo, fruto vermelho, maturação média, alta resistência à ferrugem, alta produtividade e boa qualidade de bebida. É indicada para plantios normais e adensados;

Pau-Brasil MG2- originada do cruzamento entre o Catuaí Vermelho (IAC 141/UFV 2194-141 EL 7) e o Híbrido de Timor (UFV 442-34). Apresenta porte baixo, fruto vermelho, maturação média, alta resistência à ferrugem, alta produtividade e boa qualidade de bebida. É indicada para plantios normais e adensados.

Mudas

A formação de mudas sadias e bem desenvolvidas é uma etapa fundamental para que o cafeicultor tenha sucesso.

Existem dois tipos de mudas de cafeeiro: as mudas de meio ano e as de um ano. As mudas de meio ano são mais utilizadas por apresentarem custos mais baixos por requererem menor volume de substrato e apresentarem um tempo de permanência no viveiro mais curto.

As mudas de cafeeiro podem ser produzidas em saquinhos de polietileno opaco e dotados de orifícios de dreno ou em tubetes, a partir de sementes selecionadas e com boa capacidade de germinação. As dimensões recomendadas para os saquinhos são: 11 cm largura x 20 cm de altura para mudas de meio ano; 14 cm largura x 29 cm de altura para as de um ano.

O uso de tubetes para a formação de mudas orgânicas, os quais contêm reduzido volume de substrato, não sendo permitido o uso de fertilizantes altamente solúveis, tem como desvantagem um desenvolvimento às vezes insatisfatório das mudas. Além do preço superior dos próprios tubetes, o sistema exige irrigação por microaspersão, suporte para encaixe dos recipientes e mão-de-obra especializada.

O viveiro deve ser construído em local bastante ensolarado, com topografia preferencialmente plana, evitando-se, áreas alagadiças, que favoreçam o ataque de fitopatógenos. Além disso, há necessidade de fácil acesso à água de boa qualidade e com vazão adequada. Para produzir 1000 mudas é necessária uma área de 10m2 de viveiro. O viveiro deve ser protegido com cobertura de palha (sapê ou outra) ou, mais propriamente, com tela de nylon, tipo Sombrite. Em ambos os casos, a redução da luminosidade natural não deve ultrapassar 50%. A construção do viveiro deve levar em conta a trajetória do sol, para assegurar maior homogeneidade das mudas.

A qualidade da semente, como antes mencionado, é fundamental para a obtenção de boas mudas. As sementes devem ser provenientes de instituições oficiais, de cooperativas ou de produtores registrados e inspecionados pelos órgãos de defesa sanitária vegetal. Sementes da própria lavoura devem ser colhidas de plantas vigorosas, de alta produtividade, não expressando sintomas de doenças parasitárias e com baixa incidência de frutos “chochos”.

A semeadura pode ser feita de forma direta ou indireta, usando-se ou não sementes pré-germinadas (Guimarães et al., 1989), observando-se a legislação regional.

Na semeadura direta, são colocadas duas sementes por saquinho plástico, a uma profundidade máxima de 1 cm, cobrindo-se, em seguida, com ½ cm de terra ou areia peneirada. Feito isso, os canteiros devem ser cobertos com palha seca, livre de sementes de plantas espontâneas, visando conservar a umidade e evitar que as sementes sejam deslocadas pela irrigação.

O semeio indireto embora não permitido em alguns estados, pode ser efetuado em germinadores de areia, de onde as plântulas, no estádio “palito-de-fósforo”, serão transplantadas para os recipientes. A desvantagem deste método é acarretar uma considerável quantidade de mudas com “pião” torto.

As sementes podem ser pré-germinadas em ambiente úmido, sob 2 a 3 cm de areia ou em sacos de aniagem. Na fase de “esporinha” (radícula com 1 cm no máximo), as plântulas são repicadas para os saquinhos.

Preparo de substratos

Bons substratos podem ser preparados seguindo algumas formulações simples, tais como:

70 a 80% de sub-solo argiloso + 20 a 30% de vermicomposto;

50 a 70% de sub-solo argiloso + 30 a 50% de esterco bovino curtido;

85 a 90% de sub-solo argiloso + 10 a 15% de cama de aviário curtida.

Como fonte de fósforo, recomenda-se adicionar às misturas 1% de termofosfato silícico-magnesiano. Outra opção seria a farinha de ossos calcinada na mesma proporção. Em caso de necessidade de potássio, pode-se fazer uso da cinza de lenha ou do sulfato de potássio.

É expressamente proibido na agricultura orgânica o uso do brometo de metila ou qualquer outro fumigante para desinfestação do substrato. Para tal finalidade dispõe-se da alternativa da solarização (Ricci et al., 1997). Trata-se de um método físico de desinfestação, baseado no uso da energia solar para elevação da temperatura do solo. É um método apropriado para regiões com estações climáticas bem definidas, onde o verão apresenta dias consecutivos de alta radiação solar. Existem vários métodos de solarização. Um deles consiste em esparramar o substrato umedecido sobre um terreiro acimentado, ou sobre uma lona preta e cobri-lo com plástico (polietileno) fino e transparente, bem esticado e expô-lo ao sol por 4 a 5 dias (Katan, 1980; Katan & DeVay, 1991). Durante a solarização a temperatura do substrato deve atingir níveis que são letais à grande maioria dos fitopatógenos e da plantas espontâneas (Katan et al., 1976; Ghini, 1991). A Estação Experimental de Seropédica da Pesagro-Rio desenvolveu um solarizador de baixo custo e alta eficiência que pode ser muito útil na de desinfestação de substratos para mudas de café.

Manejo das mudas

As principais diferenças quanto à formação de mudas de café para subseqüente cultivo convencional ou orgânico residem na composição do substrato para abastecimento dos saquinhos ou tubetes, no processo de desinfestação do mesmo, nas adubações complementares de cobertura ou mediante pulverização foliar e no controle de pragas, agentes fitopatogênicos e de ervas espontâneas no viveiro.

É possível que as mudas revelem sintomas de deficiência nutricional durante a fase de viveiro. Uma opção viável são os estercos bem curtidos ou compostados, vermicompostos e preparações do tipo Bokashi (farelos fermentados), os quais poderão ser utilizados em cobertura. As doses deverão ser testadas previamente em pequenos lotes de mudas, antes da aplicação geral no viveiro, a fim de assegurar ausência de efeitos fitotóxicos (queimaduras) por parte dos insumos orgânicos.

Como fonte de micronutrientes, recomendam-se pulverizações quinzenais com biofertilizantes líquidos de composição semelhante ao conhecido Supermagro.

Esses produtos, além da função nutricional, estimulam o crescimento das mudas e auxiliam no controle preventivo de fitoparasitas.

Na cafeicultura orgânica, é vedado o uso de herbicidas. O controle das ervas espontâneas no viveiro deve feito manualmente, com cuidado para não danificar as mudas. A irrigação pode ser feita de diferentes maneiras. Em pequena escala, pode ser efetivada com simples mangueiras de borracha; em viveiros maiores, a irrigação por aspersão constitui-se na melhor opção.

A partir do terceiro par de folhas definitivas deve ser iniciada a aclimatação das mudas, retirando-se gradualmente a cobertura para que as mudas estejam adaptadas às condições climáticas locais antes do plantio definitivo (Pereira et al., 1996).

Espaçamento e densidade de plantio

No Brasil, a densidade populacional dos cafezais aumentou devido à adoção de espaçamentos menores. São as chamadas lavouras adensadas, com 5 a 10 mil plantas por ha (2,5 x 0,7m; 2,0 x 0,7m; 2,0 x 1,0m, por exemplo), ou super-adensadas, com mais de 10 mil plantas ou mais por ha (1,0 x 1,0m ou 1,0 x 0,7m).

O adensamento da cultura promove melhorias das características dos solos (Pavan et al., 1993; Pavan & Chaves, 1996). Entretanto, apesar dos resultados positivos observados, o adensamento estimula a monocultura, prática condenada pela agricultura orgânica, por proporcionar um ambiente agrícola simplificado e homogêneo.

A baixa diversidade dos agroecossistemas é fator preponderante no surgimento de fitoparasitas, sendo uma das causas da instabilidade que caracteriza a agricultura contemporânea (Montecinos, 1996; Pérez & Pozo, 1996). Além disso, o adensamento das lavouras inviabiliza o uso de adubos verdes após o segundo ano de cultivo e de outras culturas consorciadas de porte baixo. Por conseguinte, deve-se optar por espaçamentos menos adensados, considerando a estabilidade do sistema de produção e buscando viabilizar o cultivo consorciado do café com outras espécies. Lavouras cafeeiras diversificadas, além de mais corretas do ponto de vista ambiental, são economicamente mais seguras, visto que o preço do café está sempre sujeito à flutuações de mercado.

Uma possibilidade para aumentar a diversidade dos cultivos seria o adensamento dos cafeeiros nas linhas e aumento do espaçamento nas entrelinhas, o que permite o plantio de culturas intercalares. Entretanto, são necessários mais estudos para avaliar a viabilidade dessa opção.

Clima

A faixa de temperatura ideal para o cultivo do café arábica fica entre 19 e 22oC. Temperaturas mais altas promovem formação de botões florais e estimulam o crescimento dos frutos. Entretanto, estimulam também, a proliferação de pragas e aumenta o risco de infecções que podem comprometer a qualidade da bebida. O cafeeiro é também muito suscetível à geada e temperaturas abaixo de 10oC inibem o crescimento da planta.

O café robusta é mais resistente a temperaturas altas e a doenças. Adapta-se bem em regiões com média anual de temperatura entre 22 a 26oC. O cafeeiro reage positivamente a um período de seca que, entretanto, não deve durar mais do que 3 meses. A quantidade de chuva ideal para o desenvolvimento da cultura fica na faixa de 1500 a 1900 mm anuais, bem distribuídos. Uma distribuição muito irregular de chuva causa floração desuniforme e maturação desigual dos frutos.

O cafeeiro é uma planta adaptada ao sombreamento parcial. Utiliza apenas cerca de 1% da energia luminosa fotossinteticamente ativa. Quando a temperatura na superfície da folha passa de 34oC, a taxa de assimilação de CO2 cai a praticamente zero, fazendo com que a atividade fotossintética de uma planta sombreada passe a ser até mais alta do que a de uma planta totalmente exposta ao sol (Café orgânico, 2000).

Adubação

A adubação do cafeeiro deve ser planejada de acordo com as análises do solo e dos tecidos foliares e as quantidades variam em função da idade da planta e do tipo de adubo usado, das perdas de nutrientes que venham a ocorrer, entre outros aspectos.

Na agricultura orgânica não é permitido o uso de determinados fertilizantes químicos, de alta concentração e solubilidade, tais como uréia, salitres, superfosfatos, cloreto de potássio e outros.

A matéria orgânica é considerada fundamental para a manutenção das características físicas, químicas e biológicas do solo. A matéria orgânica provoca mudanças nas características físicas, químicas e biológicas do solo, aumentando a aeração e a retenção de umidade. Do ponto de vista físico, a matéria orgânica melhora a estrutura do solo, reduz a plasticidade e a coesão, aumenta a capacidade de retenção de água e a aeração, permitindo maior penetração e distribuição das raízes. Quimicamente, a matéria orgânica é a principal fonte de macro e micronutrientes essenciais às plantas, além de atuar indiretamente na disponibilidade dos mesmos, devido à elevação do pH; aumenta a capacidade de retenção dos nutrientes, evitando perdas. Biologicamente, a matéria orgânica aumenta a atividade dos microorganismos do solo, por ser fonte de energia e de nutrientes (Kiehl, 1981; 1985).

Uma forma eficiente e relativamente barata de se elevar o teor de matéria orgânica dos solos é por meio da adubação verde e da adição de adubos orgânicos. Muitos produtos que podem ser utilizados como adubo orgânico são produzidos nas próprias unidades de produção, como os estercos, camas de aviário, palhas, restos vegetais e compostos. Resíduos da agroindústria também podem ser usados e nessa categoria estão incluídas as tortas oleaginosas (amendoim, algodão, mamona, cacau), borra de café, bagaços de frutas e outros subprodutos da indústria de alimentos, resíduos das usinas de açúcar e álcool (torta de filtro, vinhaça e bagaço de cana) e resíduos de beneficiamento de produtos agrícolas.

O agricultor deve selecionar o tipo de adubação em função da disponibilidade local, levando em consideração principalmente a distância da fonte até o local onde será utilizado, visto que a despesa com transporte pode elevar os custos ou até inviabilizar a atividade.

A facilidade de decomposição desses materiais depende da relação carbono:nitrogênio (relação C:N), que significa a proporção de carbono contida no material em relação ao nitrogênio. O valor ideal está em torno de 30:1. Quanto menor o valor desta relação, mais fácil será a sua decomposição. Materiais ricos em nitrogênio, tais como os estercos e palha de leguminosas são os que possuem menores valores dessa relação, que variam entre 20:1 e 30:1, enquanto nas palhadas esta relação varia de 35:1 até 100:1.

O fósforo é um nutriente importante para o desenvolvimento do cafeeiro que, no entanto, é uma cultura eficiente no uso de fosfato de fontes naturais. Para correção do nível de fósforo são recomendados: termofosfatos, fosfato de rocha natural, ou mesmo a farinha de osso. Deve-se atentar para a possibilidade de contaminação por metais pesados quando do uso de escórias ou mesmo pó de rocha, preferindo sempre fontes comprovadamente isentas de contaminações indesejáveis.

O potássio é o nutriente mais importante para o cafeeiro por estar relacionado com os processos de frutificação e de defesa natural das plantas (Guimarães et al., 2002). As fontes de potássio recomendadas na agricultura orgânica são as cinzas vegetais, a casca de café, a vinhaça, o sulfato de potássio e o sulfato duplo de potássio e magnésio.

Nos solos brasileiros é comum haver deficiência de alguns micronutrientes. Esses elementos são importantes não só pelo seu papel no metabolismo das plantas como também por suas relações com os mecanismos de defesa das plantas. De acordo com Guimarães et al. (2002), nas condições brasileiras, zinco, boro e cobre estão entre os micronutrientes mais importantes para o cafeeiro e as fontes recomendadas incluem o pó de basalto, os sulfatos, algas marinhas e os biofertilizantes, onde estes nutrientes estão na forma complexada com a matéria orgânica.

A monitorização constante do estado nutricional do cafeeiro é a chave para o desenvolvimento de plantas saudáveis e produtivas.

Estercos

Encontram-se nessa categoria os estercos provenientes de bovinos, eqüinos, caprinos, suínos, ovinos, aves e coelhos, cuja composição química varia com o sistema de criação, a idade do animal, a raça e a alimentação.

É recomendável que a cafeicultura orgânica seja integrada à atividade animal, a fim de reduzir os custos de produção. Neste caso, a atividade animal deve ser realizada conforme as regras estabelecidas pela agricultura orgânica de acordo com a regulamentação da Lei 10.831/2003. No caso de esterco obtido de fora da propriededade, o produtor deve estar atento à origem do mesmo, especialmente quanto à presença de aditivos químicos e/ou estimulantes, hormônios, medicamentos, sanitizantes e resíduos de alimentos não permitidos. É recomendável que o produtor antes de utilizar o esterco, discuta com a certificadora as restrições específicas do mercado comprador. O esterco deve ser preferencialmente compostado, ou então, deve ser estabilizado ou curtido (envelhecido naturalmente por um período de pelo menos 6 meses).

As Boas Práticas Agrícolas recomendam o uso do esterco compostado ou estabilizado por um período longo de tempo com adição de calcário (Neves et al., 2004b). Essas recomendações objetivam o uso seguro do esterco na produção por possibilitarem a eliminação de microrganismos patogênicos que porventura existam. Além disso, reduzem a presença de sementes de plantas espontâneas e a fitotoxicidade.

Composto

Chamamos de composto o adubo orgânico proveniente da compostagem, uma prática milenar de estabilização de estercos e outros resíduos orgânicos.

Para produzir um composto seguro em relação aos microrganismos potencialmente patogênicos é preciso que sejam observados os seguintes aspectos:

As pilhas devem ser reviradas e misturadas a cada 7-8 dias, no mínimo 5 vezes durante o processo.

A temperatura deve se manter entre 55 e 70ºC durante pelo menos nos primeiros 15 dias (Kiehl, 1985).

Durante a compostagem, escorre um líquido escuro das pilhas, denominado chorume. Este material, se possível, deve ser recolhido e retornado à pilha, pois representa excelente fonte de nutrientes. Após cerca de 50 dias, normalmente, o composto está pronto para ser usado.

Bokashi

Bokashi significa composto orgânico em japonês. É obtido da fermentação de farelos com o auxílio de microrganismos. Os ingredientes utilizados podem variar de acordo com a disponibilidade de cada região.

O produto pode ser aplicado nas covas, sob a saia do cafeeiro ou nas ruas. No caso de aplicação manual, deve-se tomar cuidado de destorroar para quebrar os torrões grandes antes de aplicar no solo.

A quantidade de Bokashi a ser aplicada varia em função do histórico e da análise do solo. O Bokashi possibilita a melhoria do solo em diversos aspectos e, com o decorrer do tempo, pode-se diminuir gradativamente a dosagem.

Biofertilizantes

Basicamente, o biofertilizante é o resíduo do biodigestor, obtido da fermentação de materiais orgânicos como a vinhaça, as águas de lavagem de estábulos, baias e pocilgas. O biofertilizante de esterco bovino, por exemplo, é o material pastoso resultante de sua fermentação (digestão anaeróbica) em mistura com água.

Na digestão anaeróbia há maior retenção de nitrogênio do que na decomposição aeróbia, pela compostagem. Isto ocorre pelo fato de as bactérias anaeróbias utilizarem pequena quantidade de nitrogênio dos resíduos vegetais e animais para sintetizarem proteínas.

Os biofertilizantes, além de serem importantes fontes de macro e micronutrientes, contêm substâncias com potencial de funcionar como defensivos naturais quando regularmente aplicados via foliar.

Vários tipos de biofertilizantes são utilizados, podendo ser obtidos da mistura de diversos materiais orgânicos com água, enriquecidos ou não com minerais. Podem ser aplicados sobre a planta via pulverizações e sobre o solo. Os efluentes de biodigestor, em geral de pocilgas e estábulos, contém somente esterco e água.

Outros biofertilizantes como o Supermagro e o Agrobio, têm na sua formulação fontes variadas de matéria orgânica, incluindo vegetais e minerais como pós de rocha e micronutrientes.

Os biofertilizantes funcionam como fonte suplementar de micronutrientes e de componentes não específicos e embora seus efeitos sobre as plantas não estejam totalmente estudados, estimulam, ao que tudo indica, a resistência das plantas ao ataque de pragas e agentes de doenças. Têm papel direto no controle de alguns fitoparasitas através de substâncias com ação fungicida, bactericida e/ou inseticida presentes em sua composição e há estudos mostrando também seus efeitos na promoção de florescimento e de enraizamento em algumas plantas cultivadas, possivelmente pelos hormônios vegetais nela presentes.

O Supermagro é proveniente da fermentação anaeróbia da matéria orgânica de origem animal e vegetal que resulta num líquido escuro utilizado em pulverização foliar complementar à adubação de solo, como fonte de micronutrientes. Atua também como defensivo natural por meio de bactérias benéficas, principalmente Bacillus subtilis (Pedini, 2000), que inibe o crescimento de fungos e bactérias causadores de doenças nas plantas, além de aumentar a resistência contra insetos e ácaros. Os ingredientes básicos do biofertilizante Supermagro são água, esterco bovino, mistura de sais minerais (micronutrientes), resíduos animais, melaço e leite.

Existem outras formulações adaptadas do Supermagro, como o Agrobio, biofertilizante produzido pela PESAGRO-RIO (1998) (Fernandes, 2000).

Em qualquer das formulações citadas, as pulverizações devem ser feitas nas concentrações de 2 a 5%, sendo que para as espécies perenes poderão ser suficientes quatro pulverizações por ano. Na fase de formação, até seis meses após o plantio, pulverizações de Supermagro (13 a 15%) promovem melhor crescimento dos cafeeiros (Araújo, 2004). Por estes produtos conterem micronutrientes, pulverizações excessivas podem ocasionar teores elevados nos tecidos foliares. Por este motivo, análises químicas foliares devem ser feitas frequentemente, a fim de monitorar os teores desses nutrientes nas plantas e direcionar a formulação do biofertilizante.

O biofertilizante líquido produzido a partir da simples fermentação de esterco fresco de bovinos, é recomendado para aplicação em maiores concentrações. É distribuído usando-se tanques ou através de um sistema de aspersão sobre o solo ou sobre a planta, em diluições de 20 a 40% e volumes de 100 a 200 m3/ha

Adaptado dos Sistemas de Produção, 2 – 2ª Edição ISSN 1806-2830 Versão Eletrônica – Embrapa Agrobiologia – Dez./2006 – Todos os direitos reservados, conforme Lei n° 9.610.

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